terça-feira, 14 de março de 2017

SUPRIMICIDADES


Com “Quadro Indigo” (Junho 1990) a linha passa a definir o espaço e a forma. A linha passa a ser luz. O processo artístico uma mera revelação, um desocultar do que nos é vedado. O artista primeiro cria o motivo, oculta-o e depois revela-o. Primeiro cobre de tinta o motivo e depois retira-a com um pincel de pelo curto. A ausência de motivo pode levar à transformação de uma imagem pré-existente. É o que acontece em “Quadro Indigo”. O motivo, a forma, é criada durante o processo de revelação.
Na “Suprimicidade” a revelação é dada apenas sobre o fundo, o espaço onde se insere a forma. Aqui a forma é sombra no meio da luz, e, neste aspecto, existe, pelo menos no plano objectivo, uma conjugação similar ao “Conceptualismo Simbólico”. Se a luz é transparência a forma é sombra, resistência à transparência, à intelegibilidade, ao racionalismo. No entanto, a partir de “Quadro Cinza” a forma tende para o inteligível, tende a evidenciar a ideia da pré-história e, neste ponto, as formas abstractizantes (que se situavam algures entre o abstracto e a representação) perdem a força abstracta, tornam-se inteligíveis, transparentes. Agora são elas que nos abrem as portas ao oculto, são elas que destapam o visível, entrando em concorrência com o trabalho de revelação do autor. É como se estas formas procurassem ganhar autonomia em relação ao trabalho do pintor. No entanto, este processo de revelação pictórica só é possível aos que dominam os desejos do vôo. E, de facto, todos os monstros têm asas e sabem voar “Quadro Vermelho”).
“Superimicidade é a arte do vôo, da transparência, do inalcançável. A Suprimicidade é o imaterial absoluto. E o imaterial tende para a luz, para o espaço. O espaço que engole e digere as formas, como as nossas sensações devoram os objectos. Por este facto, as formas se diluem nos meus quadros, perdem objectividade” (“Diário 1991”, manuscrito, pág. 24). 

Monstro Pré-Histórico verde, 1990
Óleo s/ Tela


Quadro Indigo, 1990
Óleo s/ Tela
Quadro Verde, 1990
Óleo s/ Tela
Quadro Cinza, 1990
Óleo s/ Tela
Estudo p/ Quadro Azul, 1990
Pastel s/ papel
Estudo p/ Quadro Azul, 1990
Pastel s/ papel
Pássaro em Castanho, 1990
Óleo s/ Tela

domingo, 19 de fevereiro de 2017

UTERINIDADES

Inicialmente a pintura mostrava uma relação entre o representado e o representador (estados de alma) no qual o próprio autor se ocultava por detrás do conceito e do símbolo, com a ideia e a perspectiva abstractizante, o autor separa-se nitidamente do observador e da própria obra. A uterinidade não é mais que o mostrar do morfológico existente no interior do homem e as suas potencialidades geradoras, potencialidades que se projectam para lá e além do próprio homem; isto é, sobre a natureza e a sua génese e nomeadamente, sobre as suas próprias transformações (metamorfoses) iniciais (mesmo antes do surgir das espécies) do planeta.
(Cit in Sonho de uma Obra, livro II, pág. 22, Abril 1991)

Initially the painting showed a relation between the represented and the representant (states of soul) in which the author himself was chosen behind the concept and the symbol, with the idea and the abstracting perspective, the author separates nidentiously from the observer and the own work. Uterineity is nothing more than the showing of the morphological existing within man and his generating potentialities, potentialities that project to and beyond man himself; that is, on nature and its genesis, and in particular on its own initial transformations (metamorphoses) (even before the emergence of species) of the planet.
(Cit in Dream of a Work, Book II, p.22, April 1991)

"Embrião", Outubro 1989
óleo s/ tela

"Nocturno", Fevereiro 1990
pastel s/ papel lustro
"Fertilidade", Fev. 1990
pastel s/ papel revista
"S/ título", Fev. 1990
colagem e pastel s/ papel revista
"A estrada do silêncio", Fev. 1990
lápis côr s/ papel
"S/ título", Ag. 1990
caneta s/ papel
"S/ título", 1990
pastel s/ papel
"Figura em azul", Setembro 88
óleo s/ cartão
"S/ título", Out. 89
pastel s/ papel
"Quadro das Formas Vermelhas", Abril 90
óleo s/ tela

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

CONCEPTUALISMO-SIMBÓLICO

A consciência não é mais que os olhos que nos olham ao espelho.

Ao optar pela criação da própria imagem – o processo criativo é aqui agora levado aos seus primórdios – a intenção é criar a forma num determinado espaço (anteriormente a forma já existia e a “meta pintura” apenas lhe dava um novo sentido plástico), o autor opta pela forma humana e pela sua integração num determinado universo.
As formas, as figuras, mais do que expressar um estado de espírito ou sentimento perante o mundo, exprimem uma filosofia de vida... A vida do artista projecta-se sobre a sua obra de uma forma avassaladora, alcançando domínios de algum expressionismo.

SIMBOLIC CONCEPTUALISM

Consciousness is nothing more than the eyes that look at us in the mirror.

In opting for the creation of one's own image - the creative process is now brought to its very beginnings - the intention is to create form in a certain space (previously the form already existed and the "meta-painting" only gave it a new plastic sense), the Author chooses the human form and its integration into a given universe.
The forms, the figures, rather than expressing a state of mind or feeling before the world, express a philosophy of life ... The artist's life is projected on his work in an overwhelming way, reaching domains of some expressionism.
 
Alfarrabista de Stephen Zweig, 1988
Are You WAyting, Mr Byrn?, 1989
Dançarino c/ Guarda Chuva, 1988
Sam Shepard imitando o Discóbulo, 1988
 

sábado, 4 de fevereiro de 2017

METAPINTURA

A Metapintura pressupõe o lado oposto do desenho: enquanto o desenho anteriormente apontava para o delimitar de uma superfície, a expressão de uma ideia, a pintura, como acto em si, deve colorir uma superfície, dar côr ao vazio, encher o vazio de sentimento.
Esta nova tomada de consciência é sobretudo feita sobre a memória de uma determinada mulher, no qual, o que se pretende registar não é a sua forma, mas o sentimento que se prende à memória dessa mulher.
O suporte não é escolhido e seleccionado com o fim de registar nele uma determinada mensagem, surge nas mãos do artista por puro acaso - são madeiras partidas e aproveitadas para o acto pictórico, são objectos anti-clássicos, anti-convencionais, despresam as normas de comunicação, do entendimento, porque é da própria memória do artista do que se trata, porque é do próprio acto pictórico em si do que se trata.

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Metapintura (painting is the goal) presupposes the opposite side of the drawing: while the drawing previously pointed to the delimitation of a surface, the expression of an idea, painting, as an act in itself, must color a surface, give color to the void, fill the void of feeling.
This new awareness is mainly made about the memory of a certain wom- an, in which what is intended to register is not her form, but the feeling that attaches itself to the memory of this woman.
The support is not chosen and selected in order to record a certain mes- sage in it, it appears in the hands of the artisdta by pure chance - they are broken timbers and used for the pictorial act, they are anti-classical, anti-conventional objects, they degrade the norms of Communication, un- derstanding, because it is the artist’s own memory of what is involved, because it is the pictorial act itself that is involved.
 


"Mulheres I-1", 1987
"Mulheres I-5", 1987
"Mulheres II-1", 1987
"Morrisey", 1987
"Sé", 1987

sábado, 28 de janeiro de 2017

AGUARELA

 Com a aguarela realizei os meus primeiros estudos clássicos, partindo de algumas imagens do impressionismo. Nestas o desenho e a massa da tinta criam jogos próprios numa experimentação que vai do mero preenchimento da forma à criação de formas autónomas que, nalguns casos dialogam com o desenho, noutro o elimi- nam completamente, numa vertente já totalmente plástica, que desenvolveria na Metapintura.
(Cit. in 35 - Catálogo da Exposição, pag. 14, Edição UAVM, Janeiro 2017)

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With the watercolor I realized my first classic studies, starting from some images of Impressionism. In these, the drawing and the mass of the ink create their own games in an experiment that goes from the simple filling of the form to the creation of autonomous forms that, in some cases, dialogue with the drawing, in another case completely eliminate it, in an already plastic line, that would develop in the Metapintura.

(Cit. In 35 - Exhibition Catalog, page 14, UAVM Edition, January 2017)



Construção metonímica...
Perspectiva Renascentista I
Nú deitado
Mulher saindo do banho
Nú frente a rectângulo vermelho

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

COLAGEM

Nos primeiros desenhos as formas encontravam-se presas e controladas pela dor, pela recusa, pela angústia, pela solidão inconformada, por uma luz insípida que apenas ofusca mais o horizonte. Com o Anarscripta* as formas libertam-se, parecem voar pelo espaço, não se importando com a superfície, apresentam-se incontidas pela dor, o branco domina sobre o negro, sobre a linha, que agora adquire a importância moduladora do espaço, a composição revaloriza-se e dois novos elementos surgem com a nova luz: a colagem e a côr.
(cit. in "Sonho de uma Obra", livro I, pag. 15/16; Agosto de 1990).
* Projecto editorial realizado na Guarda em 1984, com António Adaixo, Luis Castro e Maria Carreto
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In the first drawings the forms were trapped and controlled by pain, by refusal, by anguish, by nonconformity, by an insipid light that only overshadows the horizon. With Anarscripta the forms free themselves, they seem to fly through space, they do not care about the surface, they are unconcerned by pain, white dominates over the black, over the line, which now acquires the modulating importance of space, Composition revalorizes itself and two new elements appear with the new light: the glue and the color.

* Anarscripta - editorial project carried out in Guarda in 1984, with António Adaixo, Luis Castro and Maria Carreto

 
A Lambisgoia, 1984
Utopia, 1984
Histórias de uma Retrete Bicentina, 1984
A Eternidade, 1985
Clamor à liberdade, 1984
Cruzada Belicista, 1984
O Gato e o Rato, 1984
A Torre Sangrenta, 1984

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

DESENHO A P/B - BLACK & WHITE DRAWING


DESENHO A PRETO E BRANCO
Concepção estética da forma e da linha

A leveza da atmosfera, a rigidez das formas, a ingenuidade da criança, a preocupação estética e adolescente do estar vivo, os rostos de mulher e respectivos bustos, as estruturas geometrizantes...  É uma fase de revolta, de ambientes sombrios e formas assustadoras, encerradas si mesmas esperando por serem libertadas. É o anseio por um espaço maior, libertador da alma.

A mulher é o veículo pelo qual surge a revolta, o despertar da mente e do corpo. É a descoberta de que o sentimento e a vida, ou experiência vivida, coexistem lado a lado numa estrutura simbólica. Essa estrutura é, antes de mais, o denominador comum registado nestes primeiros desenhos, o fantástico, o sonho. Do retratável, do desenho à vista, passa-se ao imaginável, ao confronto entre o mundo que nos rodeia e a forma como sentimos a existência desse real. A arte aqui procura, é utilizada para retratar a própria vida, relatar tudo aquilo que possa ser significativo para as nossas vidas.

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BLACK AND WHITE DRAWING
Aesthetic conception of shape and line


The lightness of the atmosphere, the rigidity of the forms, the naivete of the child, the aesthetic and adolescent preoccupation of being alive, the faces of women and their busts, the geometrizing structures ... It is a phase of revolt, of gloomy environments and frightening forms
, shutting themselves up waiting to be released. It is the yearning for a greater space, liberating of the soul.

The woman is the vehicle by which the revolt arises, the awakening of the mind and the body. It is the discovery of feel and life, or lived experience, coexisting side by side in a symbolic structure. This structure is, above all, the common denominator registered in these first drawings, the fantastic, the dream. From the portraitable, from the drawing in sight, we can imagine the confrontation between the world around us and the way we feel the existence of this real. The art here seeks, is used to portray one's life, to report everything that may be meaningful to our lives.

Olho-te Daqui, 1983

Galáxia dos Cristais, 1980

Looking at the top, 1980

A Senhora do Manto Branco, 1982